Fernando Jorge: “Diria mesmo que o Dr. Vieira Pires poderá vir a ser considerado o Carrasco da Saúde em Castelo Branco”
Castelo Branco
2018-02-07 12:14:06
Patrícia Calado

POVO da BEIRA: Dr. Fernando Jorge, o atual Presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde (ULS) de Castelo Branco tem sido muito criticado quer por doentes quer por políticos devido à concentração no hospital de todos os exames complementares de diagnóstico do Serviço Nacional de Saúde. Concorda com ele?

 

Fernando Jorge: De forma alguma, querendo começar por referir que o que me preocupa é a saúde das pessoas, sobretudo dos Oleirenses que ainda recorrem ao Hospital de Castelo Branco. Indo diretamente para a sua questão, diria o seguinte: o que o Dr. Vieira Pires tem estado a fazer é do meu ponto de vista um disparate e por várias razões.

Ao centralizar num único local estes exames comete vários erros. Os hospitais são hoje, depois dos campos minados, talvez os locais de maior risco para a saúde e a vida, por haver perigo de aí se contrair infeções de germes multi resistentes aos antibióticos.

Em todo o mundo civilizado se tenta retirar o mais cedo possível os doentes dos hospitais, fazendo a convalescença fora do meio hospitalar.

O Dr. Vieira Pires faz ao contrário, centraliza num único local todos os doentes para fazerem exames médicos, Raio-X e outros, junta crianças doentes com idosos infetados, facilitando a contaminação e aumentando a morbilidade.

Por outro lado, os atrasos na realização dos exames, e eu tenho aqui comigo um exame urgente de um doente marcado para daqui a vários meses e que lhe vou dar, atrasam o tratamento dos doentes, com elevados custos para os mesmos e para o Estado. Em linguagem popular, o que o Dr. Vieira Pires está a fazer é poupar no farelo e gastar na farinha.

Acontece também que ao não permitir a liberdade de escolha dos utentes demonstra uma grande insensibilidade médica e profissional.

 

POVO da BEIRA: Já percebemos que está em desacordo com o Dr. Vieira Pires. Mas não foi o senhor e o PSD que o colocaram no lugar em que está agora?

 

Fernando Jorge: Não vou fugir à sua questão. Quando em 2011, o PSD ganhou as eleições, era Presidente da Unidade Local de Saúde, o Dr. Luís Correia. Eu sei que ele foi convidado para continuar o diretor do hospital, mas recusou. Perante a recusa foi convidado o Dr. Ernesto Rocha, que também declinou o convite. Eu próprio fui bastante pressionado a ocupar o cargo, mas era de todos conhecida a minha posição de só ocupar Cargos por concurso público ou por eleição e recusei terminantemente. Depois foi convidado o Engenheiro Fernando Pereira da Sertã, mas também não aceitou. A situação complicou-se porque o Dr. Luís Correia queria mesmo deixar a presidência da Unidade de Saúde e não se encontrava ninguém para ocupar o cargo. Foram feitos contactos a diversos médicos e outras personalidades, contudo ninguém se mostrava disponívell, até que alguém disse: se convidarem o Dr. Vieira Pires, ele aceita logo. E como diz o povo quem não tem cão, caça com gato.

 

POVO da BEIRA: Mas ele foi reconduzido no cargo pelo atual Governo, o que demonstra que tem qualidades…

 

Fernando Jorge: Sem dúvida. O Dr. Vieira Pires tem imensas que eu lhe reconheço. A sua capacidade de obediência e subserviência ao poder é de todos sobejamente conhecida. Mas a sua recondução no cargo, não sei se não teve a ver com a sua candidatura pelo Partido Socialista à Assembleia Municipal de Penamacor. Diz-se por aí que se vendeu. O Dr. Vieira Pires é hoje conhecido no meio político como a pessoa que deu a maior cambalhota política da região. Até me arrepia dizer a alcunha pela qual ele é conhecido em determinados meios citadinos. Mas eu não acredito que se tenha vendido, acho é que o Partido Socialista também não tinha ninguém que quisesse o cargo, foi isto mesmo que me foi confidenciado por um dirigente socialista com uma grande responsabilidade concelhia e distrital.

 

POVO da BEIRA: Mas ser diretor do hospital é assim tão complexo?

 

Fernando Jorge: Ao longo dos últimos 40 anos tivemos grandes Presidentes do Hospital, desde o Dr. Fernando Dias de Carvalho até ao Dr. Luís Correia. Mas a obrigatoriedade da exclusividade de funções e outras prerrogativas afastaram e afastam imensas pessoas com grande capacidade de gestão e de competência reconhecida.

 

POVO da BEIRA: Voltando ao início da nossa conversa, o Dr. Fernando Jorge foi sócio, ou ainda é, de uma empresa que presta cuidados de saúde na área dos complementares de diagnóstico, análises clínicas, Raio-X, Ecografias, etc. Como vê o futuro da empresa?

 

Fernando Jorge: Agradeço-lhe essa questão. De facto, fui fundador e sócio quase 30 anos de uma das maiores empresas do setor em Portugal. Mas há 10 anos que vendi e me desliguei por completo dessa e de outras sociedades.

Curiosamente numa delas, o Centro Médico de Castelo Branco, também o Dr. Vieira Pires era sócio, com uma quota igual à minha, tendo ambos vendido a nossa participação aos atuais donos em 2008, como lhe disse vão já lá 10 anos. Nessa altura o Dr. Vieira Pires tinha um comportamento diametralmente oposto ao que tem hoje. Mas mudam-se os tempos mudam-se as vontades. É a vida…

Respondendo à segunda parte da sua questão, se as empresas que existem em Castelo Branco resistirem a esta situação inédita em Portugal até haver modificações e ou as estruturas hospitalares rebentarem pelas costuras, continuarão a prestar serviços públicos. Caso não resistam, fecharão e os Albicastrenses irão sofrer as consequências.

Recordo que Castelo Branco durante mais de um quarto de século teve uma empresa de saúde na cidade que trouxe emprego e desenvolvimento para aqui, evitando que doentes do distrito se tivessem de deslocar aos grandes centros populacionais e doentes de quase todo o país vinham a Castelo Branco fazer os seus exames médicos. Criou riqueza e movimento na cidade. O Dr. Vieira Pires hoje está a destruir tudo do que de bom se fez. Mas o que mais me surpreende é o Dr. Luís Correia, digníssimo Presidente da Câmara de Castelo Branco, estar quedo e mudo, vendo empresas da cidade a definhar e nada fazer, quando por esse país fora, os Presidentes de Câmara e demais autarcas acarinham e apoiam os investidores do seu Concelho.

 

POVO da BEIRA: Desculpe, mas disse que esta situação é inédita em Portugal?

 

Fernando Jorge: Sim. É uma completa aberração. Existem situações em que o hospital executa também exames médicos para o exterior, como Portalegre ou a Guarda, mas não como aqui em Castelo Branco, em que todos os utentes são obrigados a ir ao centro saúde ou ao hospital. É o interior no seu melhor. Guarda e Portalegre… E Castelo Branco é a cereja em cima do bolo. Há que acabar com tudo aqui e os que cá ficam terão mais tarde também de se irem embora.

Este desatino não acontece em Coimbra, ou Porto, ou Braga, ou Viseu, ou Leiria ou Santarém e por aí adiante, cidades com hospitais com valências e técnicos em número muito superior a Castelo Branco. Qual a razão para que os habitantes de Castelo Branco terem um tratamento diferente dos outros? Desigual e pior? Sem liberdade de escolha? Sujeitos a graves infeções hospitalares? Dias, semanas e meses de espera? Qual a razão pela qual os doentes de Castelo Branco têm piores condições na saúde do que os de outros Distritos Portugueses? E a Autarquia não faz nada?

 

POVO da BEIRA: Não serão razões económicas que estão por detrás disto? Criação de mais postos de trabalho no serviço público?

 

Fernando Jorge: Porque é diferente nas outras cidades e nos outros hospitais? Se existisse vontade de aumentar postos de trabalho, de valorizar Castelo Branco, de criar mais e melhor emprego, mais habitações, mais riqueza, mais desenvolvimento, então a unidade local de saúde Castelo Branco ou a ARS não teriam desativado o laboratório de saúde pública. Quando são as Instituições e os dirigentes políticos da região a destruir o pouco que temos, por vontade própria, sem imposição de ninguém, ou corremos com eles ou não temos moral para pedir um tratamento discriminatório positivo como ouço tantas pessoas reclamar. Hoje, para realizar análises de água, alimentos e outros produtos enviam-se as amostras para mais de 100 quilómetros de distância. São custos acrescidos e menos emprego qualificado em Castelo Branco. É esta a gestão que hoje temos. Fecham Serviços irresponsavelmente e atacam os empresários que investem nesta cidade. Se fosse por razões económicas criavam-se serviços médicos tão necessários aqui, e aí sim, ajudavam-se os doentes e diminuía-se a despesa. Posso dar exemplos, alguns dos quais referi ao Sr. Presidente da Camara de Castelo Branco há poucos dias. Infelizmente assim Castelo Branco ficará ainda mais pobre. Eu diria mesmo que o Dr. Vieira Pires poderá vir a ser considerado o Carrasco da Saúde em Castelo Branco.

Digo-lhe também que o serviço convencionado, tanto quanto demostram os estudos levados a efeito sobre esta matéria, é o mais eficiente, isto é, o que pratica melhores serviços por mais baixo custo. Julgo que ninguém conhecedor destas matérias questionará estas realidades, compete a quem tomou as medidas esclarecer todas as suas motivações econômicas, científicas, de serviço público, sobretudo, porque é que está empenhado em afastar os utentes do Hospital de Castelo Branco com suspeitas de patologias graves para outros locais devido à falta de resposta em tempo útil da ULS de Castelo Branco dos exames complementares de diagnóstico ou levando-os em alternativa a terem de desembolsar avultadas verbas para fazerem os exames. E...

POVO da BEIRA: Dr. Fernando Jorge, já vai longa esta entrevista. Deixemos para outra semana isto das razões económicas e outros assuntos para depois da resposta que seguramente será dada a esta sua entrevista. Muito obrigada.

Fernando Jorge: Eu é que agradeço a oportunidade e terei muito gosto em continuar aqui ou noutro local a debater o assunto, até porque muito ainda se têm para dizer, mas compreendo que o tempo e o espaço do jornal têm limites.



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