“É tempo de deixarmos de prejudicar a ULS de Castelo Branco”
Castelo Branco
2018-08-08 12:44:23
Povo da Beira

O presidente da Câmara de Castelo Branco defende que chegou o tempo de todos se unirem, intituições e partidos políticos, em torno da defesa do setor da saúde e, em particular, da Unidade Local de Saúde (ULS) de Castelo Branco.

Numa análise profunda que fez esta semana ao POVO da BEIRA, Luís Correia expressa uma visão alargada e profunda sobre o setor da saúde em Castelo Branco.

“É tempo de deixarmos de prejudicar internamente o setor da saúde em Castelo Branco e, em particular a ULS. É tempo de, definitivamente, dizer que já partimos com atraso neste trabalho e nesta luta e que andemos a responsabilizar este ou aquele, precisamente, para que não se faça a discussão do setor através da demagogia. O objetivo é mostrar que esse erro, de discutir pela rama, já nos prejudicou demasiado”, afirmou.

O autarca realça que nesta luta são precisos todos e lembra que há alguns anos, o Hospital Amato Lusitano (HAL) de Castelo Branco teve uma fase de polémicas permanentes em que semanalmente estava nas páginas dos jornais.

“Julgo que essa é a primeira lição que devíamos ter aprendido em Castelo Branco. Porque todas essas polémicas, não sei quem serviram, mas tenho a certeza de uma coisa, prejudicaram efetivamente o nosso hospital. Enquanto nós em Castelo Branco nos envolvíamos nessas polémicas, outros estavam concentrados em reforçar as suas instituições”, frisou.

Luís Correia afirma que houve uma perda de tempo em que se passou, sobretudo, uma “imagem negativa” que ainda hoje perdura sobre o HAL, esquecendo-e aquilo que de positivo tem a instituição albicastrense.

“Passamos uma imagem negativa do hospital, junto das pessoas, que hoje ainda perdura e que vem desde desse tempo. Esta é a primeira lição que devíamos ter aprendido, não alimentarmos polémicas, muitas vezes fúteis, à volta da saúde. Quando discutimos a saúde, devemos de ter o cuidado de proteger sempre a instituição. E, por isso, muitas vezes a minha ação é recatada, não é visível, mas nunca o deixei de fazer”, sublinhou.

Sem querer fazer referências a polémicas em concreto, o autarca refere que elas aconteceram e que apenas deram vantagem a outras instituições do setor.

“Devemo-nos concentrar todos naquilo que é a defesa do hospital e não em polémicas momentâneas para não prejudicar o hospital. Devemos todos evitar polémicas públicas. Não quero sequer fazer nenhum ponto de avaliação à administração que está atualmente, nem positiva nem negativa. Acho que de uma vez por todas, devemo-nos concentrar todos naquilo que é estruturante e importante para o hospital”, defendeu.

“É altura de deixarmos de ser os bons alunos”

O presidente do município albicastrense foi contundente nas palavras e disse mesmo que chegou a altura de, em Castelo Branco, deixarmos de ser os “bons alunos, cumpridores”.

“É tempo de deixarmos de ser ingénuos. A forma como está a ser financiada a saúde privilegia os incumpridores, aqueles que não cumprem com os objetivos e orçamentos e, mais tarde ou mais cedo, acabam por ser beneficiados. É tempo das administrações da ULS, sejam elas quais forem, mudar de paradigma, deixar de procurar cumprir orçamentos criar eficiências, porque os outros é que são beneficiados”, sustentou.

O autarca diz que este é apenas um conselho que deixa porque ao analisar a situação ao longo de todo o tempo, principalmente, desde a criação das EPE, aqueles que não cumprem os orçamentos acabam sempre por ter verbas de reforço do capital social para poder pagar as dívidas que possuem.

“Não posso fazer esse apelo, porque não faz parte da minha maneira de ser. Mas, não devemos concentrarmo-nos na concretização do orçamento, mas ir mais além. O que é verdade é que ao longo de todo o tempo, isso foi mais uma desvantagem para o HAL e para a ULS. Os diferentes governos têm beneficiado o infrator. Têm apoiado mais aqueles que criaram endividamento e não pararam de reforçar as suas unidades, não cumpriram ao longo dos anos os orçamentos e nem tiveram essa preocupação”, afirmou.

Para o autarca albicastrense esta é mais uma desvantagem que a ULS de Castelo Branco tem tido em relação às restantes instituções de saúde e volta a reforçar que os diversos governos financiaram sempre quem não cumpriu e contraiu dívida.

“Foi ingenuidade da nossa parte e, por isso, atrevo-me a dizer que a administração da ULS, seja ela qual for, deve mudar um pouco nessa matéria. O que vejo é exemplo de administrações incumpridoras que não são responsabilizadas. Esta é outra desvantagem competitiva que temos tido”, disse.

Luís Correia defende que se deve procurar sensibilizar a tutela que Castelo Branco deve ter reforço de serviços, procura permanente da melhoria de qualidade de quadros, mas alertando-a para o facto que já fomos demasiado prejudicados por queremos cumprir os nossos orçamentos.

“É preciso ter cuidado, porque hoje na saúde há uma comptitividade muito grande, até na conquista de doentes e essa comptitividade não se faz só com os hospitais que estão ao nosso lado. Ela existe inclusivamernte com os hospitais de Coimbra e é preciso perceber muito bem, sempre que houver tentativas de reorganização que muitas vezes, não é mais do que uma tentativa de criar poupanças que vão beneficiar aqueles que estão mais fortes”, alertou.

Houve decisões que favoreceram outros

Luís Correia considera que outro aspeto a que devemos prestar atenção está relacionado com a Faculdade de Medicina da Universidade da Beira Interior (UBI).

O autarca defende que, em caso algum, se deve permitir que a faculdade de medicina favoreça outros hospitais.

“Tem que haver um equilíbrio. E aí, temos uma vantagem, pois a faculdade precisa dos três hospitais da Beira Interior. Temos que ter esse argumento para defender os nossos interesses e também, para dizer à tutela, vejam lá bem onde se estão a meter, porque temos que defender o nosso hospital e a ULS de Castelo Branco. Esse é outro aspeto que, volto a dizer, temos que lutar todos pelo mesmo objetivo”, realçou.

Luís Correia recorda mesmo que houve, ao longo do tempo, decisões a partir da UBI que favoreceram outros e também decisões da tutela que beneficiaram o CHCB porque tinha ao lado a faculdade de medicina.

“Isto apesar de, quando foi criado o curso de medicina na UBI, terem dado garantias no governo de então que o HAL não ía perder com isso. O que é verdade é que depois a memória dos governos esquece-se. E, temos que lutar para que isso não aconteça”, defendeu.

O autarca adianta mesmo que, se for caso disso e se o HAL for prejudicado, “que não venha para aqui nenhum aluno da UBI porque eles precisam de Castelo Branco. É preciso decisões firmes. Precoupa-me aquilo que se está a passar neste momento relativamente a esta matéria”, disse.

Uma vez mais, o presidente do município albicastrense defende a união de todos em torno da ULS e não lutas fúteis que apenas servem para desgastar a instituição internamente.

“Aquilo que estou a dizer é que sempre me moveu o bem comum. Tenho cosnciência de que essas lutas partidárias já prejudicaram suficientemente o hopital e a saúde em Castelo Branco. Podia entrar em acusações politico partidarias e responsabilizar alguém. Não é esse o meu papel. Estou aqui a fazer uma analise estratégica e quero acreditar que seja possivel lutarmos todos juntos”, afirmou.

Criação das EPE foi marcante para o HAL

O autarca de Castelo Branco considera que outro dos pontos marcantes para o HAL e onde se perdeu uma oportunidade foi o período em que foram criadas, pela primeira vez, as entidades públicas empresariais (EPE), ou seja, os hospitais EPE.

“Isso foi uma decisão estruturante que prejudicou o nosso hospital. Porquê? Primeiro, os EPE, podiam contratar médicos por livre iniciativa, pelo ordenado que quisessem e o nosso hospital mantendo-se na esfera estatal, não pode contratar durante alguns anos, os profissionais de saúde como os outros. Andámos uns anos em desvantagem e perdemos”, disse.

Além disso, explica que os EPE tiveram ainda vantagens n captação de fundos comunitários, onde, mais uma vez, o HAL perdeu. Outra vantagem que os hospitais EPE tiveram tem a ver com o orçamento extra que lhes foi dado.

“Quando cheguei à ULS de Castelo Branco em 2010, percebi que, por exemplo, o CHCB recebia além do orçamento normal, aquilo a que chamavam um valor de convergência, no valor anual de cerca de 10 milhões de euros. Não bastava já terem os a capacidade e possibilidade de contratar mais profissionais, não bastava os quadros técnicos, não bastava a maior flexibilidade na contratação e ainda por cima recebiam esse valor de convergência”, explica.

Ora, o HAL teve cerca de cinco anos antes de se tornar em EPE. Isso, segundo o autarca, foi desde logo uma desvantagem competitiva para o HAL.

“O CHCB nesse período recebeu qualquer coisa como 50 milhões de euros e Castelo Branco, nada. A não criação de um EPE foi desde logo uma decisão que nos prejudicou. Ainda hoje estamos a sofrer com essas decisões”, frisou.

O autarca recorda que quando no início de 2010, assumiu funções na ULS foi a pedido do então presidente da Câmara de Castelo Branco, Joaquim Morão, e numa perspetiva de recuperação das perdas que o HAL já tinha sofrido.

“Tivemos que criar a ULS, juntar o HAL com os cuidados de saúde primários, fazer a sua integração, criar a sua estrutura. Criámos um regulamento interno para toda a ULS. Estávamos em 2010 e o QCA terminava em 2013 e numa situação de crise”, recorda.

Luís Correia explica ainda que nessa altura foi apresentado publicamente o plano diretor do HAL.

“Foi com base nele que podiamos fazer os projetos para ir bucar fundos comunitários. Nessa altura, lamento que em termos partidários tenham criticado a vontade de fazer obra, porque achavam que não era precisa. Mais uma vez andamos a prejudicar-nos a nós próprios”, referiu.

Adianta ainda que o objetivo era fortalecer e mudar o paradigma do HAL e fortalecê-lo nas funções de ambulatório, porque ainda hoje sofre desse problema, de ter sido feito virado para o internamento.

“E, foi isso que fizemos com o plano diretor pensar a refuncionalização toda do hospital. Por isso anunciamos que numa primeira fase do plano diretor tinhamos que construir um edifíco na parte traseira do HAL, onde se iria instalar tudo aquilo que eram serviços de ambulatório e numa segunda fase, poderia instalar-se um novo bloco operatório”, explicou.

Luís Correia sublinha que conseguiram na altura fazer o plano diretor que estava definido em fases, sendo que a primeira tinha uma avalição de cerca de 10 a 12 milhões de euros.

“Tinha-se garantido no QREN, cerca de sete milhões de financiamento. Tinhamos tido um valor de quatro milhões de capital social que eu, na altura, guardei religiosamente para financiar essa obra para fazer a comparticipação nacional no futuro. Mas, a determinada altura, a tutela muda e perde-se essa vontade de concretizar, essa vontade de mudança e perdeu-se muito dinheiro”, concluiu.

Para o autarca, a grande questão do HAL é o reforço da atratividade e diz que nessa altura, foi feito um esforço para o concretizar.

“A determinada altura, politicamente deixou-se cair tudo isso. Mais uma vez e, infelizmente, apesar de se estar a querer fazer um reforço no HAL, mesmo assim, não deixou de haver criticas mesquinhas e mais uma vez nós, em Castelo Branco, saímos prejudicados”, concluiu.

Luís Correia explicou ainda que em 2014, já como presidente da Câmara de Castelo Branco, solicitou ao secretário de Estado da Saúde uma reunião, onde lhe fez uma exposição de toda a situação de tudo aquilo que se tinha passado em torno da ULS de Castelo Branco.

“Na altura expliquei todas as questões que estavam em causa no HAL e na ULS e onde lhe pedi que compensasse ULS na preparação do 2020. Nessa data, tive também uma reunião com a presidente da CCDRC sobre o assunto. Por alguma razão hoje está a fazer-se um invstimento de 3,5 milhões de euros no HAL, mas de uma forma diferente e inferior ao investimento inicialmente previsto no plano diretor que tevce inclusivamente que ser refeito”, sustentou.

O autarca recorda ainda que a Câmara de Castelo Branco tornou possíveis algumas obras no HAL, como as urgências ou ainda as obras no Centro de Saúde de São Tiago, onde o município se substituiu à tutela.

“Os investimentos que fizemos no HAL não foram tão poucos quanto isso. Deve ser, provavelmente, um caso único a nivel do país. Os investimentos na urgência, se não fosse a câmara não teriam sido possiveis por questões orçamentais do Ministério da Saúde. Não nos importamos de substituir a tutela mas que isso também seja reconhecido. Não o fazemos por ser uma medida eleitoral. É a concretização do pensamento que temos para o HAL e uma forma de responsabilizar a tutela também. Se não virmos essa repsonsabilização, a câmara não dará mais qualquer apoio à ULS e ao HAL”, sublinhou.

Luís Correia mostrou-se ainda desagradado com as recentes vagas e a retificação dos benefícios para a ULS de Castelo Branco.

“Sobre o despacho, mesmo com a correção feita, beneficia uns em detrimento de outros. Cá estarei para no local certo defender os nossos interesses . Também com este governo, tenho levado e feito a defesa do HAL”, realçou.



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