Jovens lamentam a falta de oportunidades e de oferta nas suas áreas formativas
Castelo Branco
2019-03-13 10:05:13
Lourenço Martins de Carvalho

O primeiro emprego é um problema para grande parte dos recém-licenciados portugueses e para as cidades. Os jovens, cada vez mais qualificados e preparados, procuraram trabalhos na área com um salário correspondente aos seus estudos.

As cidades portuguesas, principalmente do interior e tirando da equação Lisboa e Porto, têm dificuldades para fixar os recém-licenciados e oferecer-lhes o que eles procuram.

Em Castelo Branco, o Instituto Politécnico de Castelo Branco (IPCB) é a principal instituição na atração de jovens para o concelho. Será que a cidade, após a finalização dos estudos, oferece condições para os recém-licenciados se fixarem?

Em dezembro 2018, segundos dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), a cidade albicastrense contava 1.550 desempregados inscritos, sendo o oitavo concelho da zona Centro com mais desempregados – atrás de Aveiro, Coimbra, Covilhã, Figueira da Foz, Leiria, Ovar e Viseu.

O desemprego jovem em Castelo Branco significa cerca de 28% do total

Destes 1.550 desempregados inscritos no IEFP, 440 situam-se em dois Grupos Etários: 139 com menos de 25 anos e 301 entre os 25 e os 34 anos. Ou seja, o desemprego jovem em Castelo Branco significa cerca de 28% do total.

Se olharmos para o desemprego segundo o nível de escolaridade, notamos que, em dezembro de 2018, as pessoas com o ensino secundário (450) representavam a maior número de desempregados e, com o ensino superior, a taxa fixava-se nas 202 pessoas.

Em 2017, no mesmo mês, a capital da Beira Baixa apresentava 1.679 desempregados inscritos, o que mostra que, de 2017 para 2018, houve uma redução de 129 pessoas sem emprego. Em comparação com os outros concelhos da zona Centro, Castelo Branco já estava na oitava posição, atrás dos mesmos concelhos.

Quanto ao desemprego segundo o nível de escolaridade, porém, registou-se um aumento, de 2017 para 2018, no ensino superior (263) e uma ligeira redução no ensino secundário (443).

Mais importante, no entanto, que olhar para os números é tentar perceber a realidade que os recém-licenciados do IPCB enfrentam quando tentam entrar no mercado de trabalho.

Grande parte dos jovens como não conseguem encontrar trabalho na sua área formativa – por falta de oportunidades ou falta de oferta - optam por outras áreas, nomeadamente os Contact Center e as lojas em grandes superfícies comerciais.

O facto de as empresas procurarem pessoas com experiência dificulta muito a procura aos recém-licenciados que, muitas vezes, não contam com qualquer experiência na área ou apenas com estágios curriculares.

Para Leopoldo Rodrigues, diretor do IEFP de Castelo Branco, a cidade tem “capacidade para fixar jovens”, mas reconhece que algumas áreas necessitam de “profissionais qualificados”.

“Castelo Branco tem capacidade para fixar jovens, mas não os que terminam os cursos superiores, com ofertas nas áreas das formações académicas (…) Para além dos seis Contact Center existentes na cidade, há oferta em várias áreas profissionais, nomeadamente na Manutenção industrial; Eletricidade; Eletrotecnia; Maquinação e Programação CNC; Mecatrónica; entre outras. Salienta-se o facto de nalgumas destas áreas, haver necessidade de mais profissionais qualificados”, explicou.

Nem todos os recém-licenciados estão a trabalhar na sua área formativa

Os cursos do IPCB com maior índice de integração são Contabilidade e Gestão Financeira, Serviço Social, Engenharia Informática e Industrial, Enfermagem e Fisioterapia, registando-se “um número razoável de contratações sem termo na sequência do Estágio Profissional”.

O diretor do IEFP admite que nem todos os recém-licenciados estão a trabalhar na área formativa e destaca a capacidade de adaptação enquanto esperam pela oportunidade certa “integrando os Contact Center, lojas em espaços comerciais (a tempo parcial) e empresas do sector primário (Agricultura) no concelho de Idanha-a-Nova, principalmente nos meses de primavera, verão e outono”.

Para conseguir fixar mais jovens em Castelo Branco, Leopoldo Rodrigues defende algumas medidas como a atribuição “de incentivos às empresas, no âmbito da contratação de jovens; criação de uma rede de transportes públicos minimamente compatível; e a atribuição de incentivos específicos para jovens, a nível de benefícios sociais, progressão profissional, horário de trabalho, ambiente de trabalho e nível salarial”.

“Espero um dia trabalhar na minha área”

Marta Diogo, natural de Odivelas, tem 27 anos e é licenciada em Educação Básica e Mestre em Educação Pré-escolar e Ensino do 1°Ciclo do Ensino Básico, ambos na Escola Superior de Educação de Castelo Branco (ESE). Neste momento encontra-se a tirar uma pós-graduação na ESECB em Educação Especial - Domínio Cognitivo e Motor e a trabalhar no Contact Center da Segurança Social.

“Optei pelo IPCB porque como já venho a Castelo Branco desde pequena não era para mim uma cidade estranha. Também por a minha irmã ter estudado na ESE e ter boas referências”, afirmou.

Apesar de “adorar” Castelo Branco pela “qualidade de vida que a cidade permite ter”, a jovem lamenta a falta de oportunidades e de oferta na sua área formativa.

“São muito poucas as ofertas que Castelo Branco tem de emprego na minha área. Principalmente por ser recém-mestre e sem experiência”, disse desiludida.

Marta Diogo considera que a cidade tem “bastante oferta de emprego, mas não nas áreas de formação que estão incluídas nas escolas do IPCB”.

O emprego no Contact Center da Segurança Social surge da necessidade de trabalhar, desejando que seja uma situação temporária. “Espero um dia trabalhar na minha área”.

Castelo Branco só oferece dois locais para os recém-licenciados trabalharem: Contact Centers e lojas de grandes superfícies

Marcelo Gonçalves, proveniente de Almeida, é licenciado em Secretariado, na ESE, tendo também uma pós-graduação em Gestão de Empresas, na Escola Superior de Gestão (ESGIN), em Idanha-a-Nova.

De momento, encontra-se a trabalhar no Contact Center do Celeiro, em Castelo Branco, tratando-se “de uma situação temporária”, uma vez que “não encontrava nada que me agradasse”.

A escolha do IPCB e da ESE para tirar a Licenciatura prende-se com o facto da qualidade de vida da cidade.

“Inscrevi me no IPCB porque tinha a ideia de ir para a Força Aérea, mas optei por tirar um curso para, mais tarde, ter mais opções de trabalho. Também porque é uma cidade com um estilo de vida bastante saudável e barato face às restantes cidades que temos em Portugal”, confessou.

Tal como Marta Diogo, Marcelo Gonçalves é da opinião que Castelo Branco tem pouca oferta nas áreas formativas.

“De momento, Castelo Branco ainda só oferece dois locais para os recém-licenciados trabalharem: Contact Centers e lojas de grandes superfícies. As restantes áreas procuram sempre pessoas com experiência”, referiu.

A procura do primeiro emprego para os recém-licenciados é um problema de várias cidades do país, não é só em Castelo Branco, e que se agrava no interior. A fixação de empresas nessas áreas e os incentivos às mesmas na contratação de jovens é um dos caminhos para mudar a tendência.

As Câmaras Municipais têm um papel muito importante nesta “luta”, criando condições aos jovens e às empresas e apelando ao empreendedorismo. A criação do CEI – Centro de Empresas Inovadoras – e da Fábrica da Criatividade, em Castelo Branco, são bons exemplos de medidas de fixação de jovens.



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